Bento XVI: Um verdadeiro defensor da liberdade

Rev. Robert Sirico

Presidente do Acton Institute

Já ouvimos “mais de um milhão de vezes” que o novo papa é conservador. Por mais que isso possa parecer contrário às evidências, creio que o novo papado, ao se manifestar sobre economia e política, o faça na linha de um liberalismo humano e unificador. Não falo do liberalismo como o conhecemos hoje, preso ao gerenciamento do Estado e ao relativismo democrático, mas o liberalismo numa variante mais antiga, em que punha as esperanças na sociedade, na fé e na liberdade. Tenham um pouco de paciência comigo, que já me explico.

Quando foi anunciado que o Cardeal Joseph Ratzinger tomaria o nome de Bento XVI, imediatamente veio a pergunta: Quem era Bento XV e o que ele representava? Quais as implicações para o futuro do papado se o novo papa se considerar, de certa forma, sucessor do Bento anterior?

Bento XV foi papa de 1914 a 1922 – o papa que testemunhou uma era de paz, prosperidade e esperança se tornar uma era de carnificina, de violência e dos Estados totalitários. É lembrado, na maioria das vezes, pela aflitiva encíclica Ad Beatissimi Apostolorum Principis (1914), onde buscava pôr fim aos conflitos e batalhas, do que hoje chamamos de Primeira Guerra Mundial, que tão violentamente frustrou as expectativas de muitos da geração dos liberais clássicos do século XIX.

De modo particular lembro-me de Lorde Acton, que tão bem exemplificou o espírito de sua época. O poder temporal do papa tinha chegado ao fim impulsionado pela ala liberal da fé. Essa ala tinha posto as esperanças tanto na capacidade da fé cristã florescer na ausência da coerção, quanto na capacidade do mundo de continuar a progredir rumo à paz e à prosperidade. Era para ser um mundo de livre comércio, de idéias livres, e de ortodoxia religiosa. Mas, isso não foi o que aconteceu. A visão do liberalismo na qual depositaram as esperanças foi destruída, absoluta e completamente, pelo massacre da guerra. Em 1914, Bento XV escreveu a seguinte passagem aterradora:

O tremendo fantasma da guerra domina por todo o lado, e quase não há outro pensamento que ocupe agora as mentes. Nações grandes e fortes lá estão nos campos de batalha. Crêem maravilhoso estar aparelhadas daqueles horríveis meios que o progresso da arte militar inventou, e confrontam-se em gigantescas carnificinas. Nenhum limite às ruínas, nem às matanças. Cada dia a terra banha-se de sangue novo, recobrindo-se de mortos e feridos. E quem diria que tais pessoas, armadas umas contra as outras, descendem de um mesmo progenitor, que sejam todas da mesma natureza e todas parte da mesma sociedade humana? Quem os reconheceriam irmãos, filhos do mesmo Pai que está nos céus? Enquanto os exércitos combatem de um e de outro lado, as nações, as famílias e os indivíduos gemem em dores e misérias, tristes sequazes da guerra; dia e noite multiplicam-se os excessos, o contingente das viúvas e órfãos; o comércio enfraquece-se, os campos são abandonados, as artes suspensas, os ricos são tomados de angústia, os pobres de tristeza, e todos de luto (Ad Beatissimi Apostolorum Principis, § 4-5).

Obviamente essas tristes palavras serviram como antecipação daquilo que se seguiria: os crimes e horrores do comunismo e do nazismo, o fim da unidade européia, o advento das armas de destruição em massa, a proliferação no ocidente das ideologias de gerenciamento social, secularismo, consumismo e todos os tipos de horrores. Tais são as preocupações mundanas dos papas desde Bento XV até João Paulo II, cuja utilidade ao derrubar as grandes tiranias do século passado se deu de modo singular. Foi uma época debilitante para qualquer um que acreditasse no espírito de Lorde Acton e seus contemporâneos.

E o que aconteceu à esperança cristã? A encontramos nos documentos do Concílio Vaticano II, o evento mais importante para dar forma às vidas tanto de João Paulo II, quanto do teólogo alemão Joseph Ratzinger. Esse Concílio não se opôs à liberdade religiosa, mas ao contrário, a abraçou de modo mais pleno, confiante de que os reveses que se seguiram ao fim do poder temporal seriam temporários. O Concílio via adiante, rumo a um mundo de renovado progresso espiritual e material, no qual um ordenamento global da liberdade – juntamente com o avanço tecnológico – pudesse servir a todos os povos, em todos os lugares. Foi esse concílio que fez com que a missão da Igreja fosse não só o cuidado das almas, mas do bem estar de todas as sociedades, onde as pessoas tenham vida e voz.

Ao fim do Concílio, muitos católicos conservadores tinham imensas dúvidas sobre a visão otimista inculcada no Vaticano II, particularmente aquela que motivou a Igreja a abraçar o mundo moderno e, mais claramente, definir a necessidade de liberdade religiosa e dos direitos humanos. Mas, hoje em dia, é clara a sabedoria do Concílio. O comunismo e o nazismo vieram e se foram. Outros “ismos” que dominaram o século XX também parecem desaparecer. Vivemos num tempo de novas esperanças, semelhantes às que deram origem à visão liberal do século XIX.

Esse ponto de vista foi calorosamente defendido por João Paulo II, e podemos esperar a plena continuidade dessa visão no pontificado de Bento XVI. O próprio nome do novo papa nos dá esperanças de que o derramamento de sangue que ocorreu entre a Primeira Guerra e a queda do muro de Berlim não seja, necessariamente, nosso destino comum. Certamente o Cardeal Ratzinger não contradisse os ensinamentos econômicos mais liberalizantes de João Paulo II, que via grandes méritos na economia de mercado e, até mesmo condenava o modelo europeu de Estados de bem-estar social.

O Cardeal Ratzinger esteve mais concentrado nas implicações teológicas das heresias políticas, tais como a Teologia da Libertação, do que nas questões dos sistemas econômicos. Mas escreveu com grande otimismo sobre as perspectivas de uma Europa nova e unificada – não unificada pelo Estado, mas pela fé e cooperação. Escreveu veementes condenações ao Estado totalitário como o conhecemos e censurou o modo pelo qual o projeto de gerenciamento social secular, fruto da arrogância estatal, tem substituído a visão cristã de unidade pela fé.

Acima de tudo, Ratzinger escreveu em defesa da autêntica liberdade. Afirmou que “o verdadeiro dom da liberdade foi o que a fé cristã trouxe ao mundo. Ela foi a primeira a romper a identidade entre Estado e religião e, portanto, a retirar do Estado a reivindicação de totalidade, ao diferenciar a fé da esfera estatal que dá ao homem o direito de manter-se excluído e afastado de Deus... Liberdade de consciência é a essência de toda liberdade” (Liberdade e coação na Igreja, 1981).

Esta é a voz de um verdadeiro defensor da liberdade. Vida longa à Bento XVI!