God and Caesar: Selected Essays on Religion, Politics, and Society

Samuel Gregg

Cardinal George Pell (Edited by M. A. Casey)
Washington D.C.: The Catholic University of América Press, 2007. (189 páginas)

A vocação de um bispo católico, no mundo ocidental moderno, não é fácil. As responsabilidades do dia-a-dia são muitas, semelhantes às de um CEO numa grande empresa. Esse é, no entanto, o problema do bispo: agir como gerente ou mediador, para não dizer como “captador-mor de recursos”. Sua função é a mesma desde a época dos apóstolos. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, os bispos“fazem as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice, e agem em seu nome (in eius persona agant)” (CCC §1558).

No livro God and Caesar: Selected Essays on Religion, Politics, and Society [Deus e César: Ensaios escolhidos sobre religião, política e sociedade], o cardeal George Pell, arcebispo de Sidney, dá um exemplo aos leitores de como um bispo católico pode engajar-se com a modernidade, onde a Igreja, hoje, vive, mas de modo fiel à reta razão e a ortodoxia católica, bem como manter-se consciente de que o mundo pós-Iluminismo nos legou muitas coisas boas, juntamente com novas expressões de velhas formas de mal. Não é exagero afirmar que muitos bispos católicos, especialmente no mundo desenvolvido, não se mostraram peritos em chegar a esse equilíbrio. Muitas vezes, há um retrocesso na tendência gerencial-clerical-carreirista e/ou, indiscriminadamente, embaraçosa de se tornarem escravos de qualquer coisa contemporânea, percebida como moderna ou relevante, não importando quão desordenada ou antropologicamente suspeita nas origens.

A esse respeito, o livro God and Caesar é um exercício de instrução – não só para os leitores, mas também em como um cristão ortodoxo pode falar de forma respeitosa, sem ambigüidade e sem o mínimo traço de medo da moderna mentalidade secular. Ao fazê-lo, Pell demonstra uma confortável familiaridade com uma série de fontes antigas e modernas, baseando sua argumentação sobre princípios básicos de lógica e evitando a linguagem excessivamente acadêmica.

Em determinado nível, esse livro de ensaios é sobre a perpétua dificuldade de relacionamento entre o espiritual e o temporal, que existe desde que Jesus Cristo dessacralizou o Estado pelas famosas palavras do evangelho de Lucas (Lc 20,20-26). Num outro nível, no entanto, esse livro se dirige ao relacionamento entre o cristianismo e os vários iluminismos, que começam a emergir no século XVII. Cada capítulo deriva de uma palestra ou pronunciamento em vários locais, entre os anos de 1997 e 2004. É importante notar que esses discursos foram originalmente apresentados para ambientes seculares e não religiosos.

Na primeira metade do livro, “Catolicismo e democracia”, se dirige ao relacionamento entre lei e moralidade, igreja e política, natureza da liberdade e as características da própria democracia. Em cada ocasião, o alvo de Pell é a tendência contemporânea de associar a liberdade com relativismo e a separar liberdade da verdade conhecida por intermédio da fé e da razão. O filósofo do século XVIII, David Hume (1711-1776) é identificado como uma das fontes da separação, bem como G. W. F. Hegel (1770-1831), Thomas Huxley (1825-1895), Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigmund Freud (1856-1939). Para diagnosticar a natureza da separação e as conseqüências nas modernas democracias – particularmente a secularização da mentalidade ocidental – Pell chama atenção para personagens desde Blaise Pascal (1623-1662), John Henry Newman (1801-1890) e Alexis de Tocqueville (1805-1859), chegando a John Finnis, John Haldane e Pierre Manent.

Secularização, para Pell, não significa a saudável distinção entre as esferas espiritual e temporal. Ao contrário, o autor tem em mente o abandono da metafísica e a adoção do ateísmo prático (compreendido como viver e agir como se Deus não existisse) por parte de muitos ocidentais, até mesmo por muitos que se auto-identificam como cristãos e judeus. Segundo a observação de Pell, uma vez que uma sociedade segue esse caminho, então muitas das coisas que a modernidade clama para si como sua criação (tal como o conceito de direitos humanos), passam a não fazer mais sentido, e, de fato, podem se tornar ameaças profundas à liberdade e dignidade humanas.

Em nenhum momento, no entanto, Pell sugere que devamos prescindir do projeto moderno. Na verdade, ele dá boas vindas aos seus frutos. Pell também faz críticas cuidadosas a determinados pensadores católicos que parecem ver qualquer diálogo com a modernidade como intrinsecamente problemático.“Os mundos do Iluminismo e do pós-iluminismo”, escreve Pell:

Não são estranhos a nossa tradição de modo que não tenhamos nada a dizer e tudo a temer. O próprio Iluminismo é, de muitas formas, cria do cristianismo [...] De fato, o Iluminismo moderno deixa de compreender-se, plenamente, a menos que reconheça as raízes cristãs e seu contexto: Como podemos entender Hume sem o pano de fundo da fé e da ética calvinista que ele tenta responder? Como entender o Iluminismo francês sem o jansenismo? (p. 61).

A segunda metade de God and Caesar se preocupa mais diretamente com questionamentos teológicos e metafísicos, e em demonstrar a relevância imediata de tais assuntos para a vida social e política. Isso inclui o relacionamento entre fé e ciência, por que é razoável acreditar que Deus existe, o papel do bispo católico, o lugar da Teologia na universidade e o significado total da dignidade humana. Ao longo de todos esses ensaios, Pell demonstra como a crença cristã ortodoxa, na verdade, facilita, em vez de impedir a boa Teologia e dá muitos exemplos para dar suporte a sua argumentação. Nesse processo, Pell, de forma educada, porém clara, sublinha (de forma muito semelhante ao que fez o cardeal Francis George de Chicago, há alguns anos) a característica moribunda daquelas teologias e dos, agora, enfraquecidos movimentos – muitas vezes rotulados e auto identificados como progressistas – que abraçaram o caminho do dissenso após o Concílio Vaticano II e que agora pouco fazem, a não ser macaquear a cultura secular do esquerdismo progressista.

Muito da crítica de Pell a tais tendências implicam na cuidadosa demolição intelectual do argumento do “primado da consciência”, promovido por intelectuais católicos do dissenso. Nesse ponto, Pell demonstra que tais argumentos têm pouca relação com o entendimento católico de consciência que insiste que a consciência deriva da dignidade, não de um compromisso a priori ao julgamento individual subjetivo, mas está baseado numa verdade teológica e moral, revelada pela reta razão e pela fé naquilo que a Igreja Católica sempre ensinou como verdade.

Uma possível fraqueza dessa segunda metade do livro God and Caesar é uma das partes do ensaio “A defesa de Deus”. A maior parte do ensaio é, cuidadosamente, escrito, com argumentos filosóficos fáceis de entender sobre porque é mais razoável acreditar em Deus do que não acreditar em sua existência. Ele termina, no entanto, com uma seção, onde Pell ressalta a utilidade social da religião. Tal mudança da metafísica para a sociologia é desnecessária. Dado que os ateus profissionais de hoje baseiam a maior parte da argumentação, na alegada, disfunção social da religião, talvez Pell tenha considerado necessário demonstrar que tais abordagens, em geral, ignoram grande parte das evidências empíricas sobre o assunto. No final, contudo, não fica claro aonde essa discussão nos leva. Afinal de contas, se a religião é ou não é verdadeira nas pretensões fundamentais, então nenhuma utilidade social pode compensar o fato dos seguidores daquela religião viver uma inverdade. É interessante a forma como Pell reconhece que suas reflexões sobre o positivo impacto social podem ser percebidas como uma instância especial de apelação. Não obstante, o autor acredita ser bom que as pessoas sejam lembradas dos benefícios sociais da religião – um tópico muito enfatizado por Tocqueville, na obraDemocracia na América, cento e setenta anos atrás.

Na introdução ao livro, Pell identifica as pessoas que influenciaram sua forma de pensar como os que crêem na religião devem agir na esfera pública. Um nome que não foi mencionado, no entanto, e que deve vir à mente dos leitores, após ler esses ensaios, é o de outro cardeal-bispo.

Martirizado em 1535, São John Fisher (1469-1535) – um santo que Pell seria o perfeito biógrafo potencial – é famoso por ser o único bispo católico inglês que recusou submeter-se à vinculação Igreja-Estado do rei Henrique VIII (1491-1547). Infelizmente, a erudição de Fisher, suas formidáveis habilidades pastorais, capacidades intelectuais, humildade, e o compromisso entusiasmado com as novas idéias que brotavam do Renascimento são, em grande parte, desconhecidas aos católicos de hoje. Infelizmente tal santo não é conhecido. Nunca tais modelos foram tão necessários aos bispos católicos quanto nos nossos dias. God and Caesar, todavia, ilustra que bispos do calibre de Fisher estão vivos e bem na Igreja, hoje. Deo Gratias

Samuel Gregg 
Diretor de Pesquisa do Acton Institute for the Study of Religion and Liberty e Membro do Conselho Editorial do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP).