God’s Choice: Pope Benedict XVI and the Future of the Catholic Church

Michael Matheson Miller

George Weigel
New York: HarperCollins, 2005 (320 páginas)

O diálogo Górgias de Platão (428-347 a.C.) começa com Sócrates dizendo a Querofonte para perguntar a Górgias quem ele é. Eric Voegelin (1901-1985) chamou esse diálogo de a chave para a pergunta existencial – quem és tu. No início do século XX, a Europa se depara com a mesma pergunta e crescem as evidências de que não sabe respondê-la. A rejeição da herança católica na Constituição Européia foi um exemplo do que Marcello Pera chamou de “auto-aversão”, e a crise demográfica de uma população, cada vez mais velha e que não se renova, revela um misto de falta de esperança no futuro e de auto-obsessão. Esse não é só um problema europeu. Cada geração deve enfrentar novamente as questões fundamentais da vida e nenhuma cultura ou civilização é impenetrável ao declínio e à desintegração. Historiadores, como Oswald Spengler (1880-1936), afirmaram que o declínio era inevitável. Arnold Toynbee (1852-1883) rejeitou a tese determinista de Spengler e afirmava que uma civilização pode resistir ao declínio, mas suas esperanças repousam em indivíduos extraordinários, ou naquilo que ele chama de minorias criativas. O livro de George Weigel, God's Choice: Pope Benedict XVI and the future of the Catholic Church [A escolha de Deus: o Papa Bento XVI e o futuro da Igreja Católica], trata de dois indivíduos extraordinários e da missão de reconstruir a cultura: João Paulo II e Bento XVI, líderes intelectuais e morais cujas vidas foram dedicadas a pregar a liberdade, a esperança e a alegria baseadas na verdade sobre o homem e sobre Deus.

O livro God's Choice realmente é a seqüência do tour de force biográfico de João Paulo II escrito por Weigel chamado Witness to Hope [Testemunho da esperança]. Weigel começa detalhando das últimas semanas da vida de João Paulo II, a memorável vigília na janela de seus aposentos durante os momentos finais na véspera da festa da divina misericórdia, e o funeral, acompanhado por uma multidão e assistido por milhões em todo o mundo.

Weigel concentra-se no tema dos últimos anos do pontificado de João Paulo II – a realidade do sofrimento e da fragilidade humanos. O Papa via seu sofrimento como um sinal de Cristo e Imago Dei – uma verdade a que ele dedicou o intelecto e, por fim, o próprio corpo para comunicá-la ao mundo. Ao contrário dos campos de concentração do século XX, João Paulo II afirmou a dignidade de cada pessoa, independente de sua condição ou utilidade. No fim de sua vida, o frágil e trêmulo pontífice incorporou a passagem de São Paulo “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (1Col 1,24).

No capítulo “The Church that John Paul Left Behind” [A Igreja que João Paulo II legou], Weigel analisa a mensagem de esperança e de “audácia cristã” que João Paulo II deu ao mundo por meio de um“Magistério sem precedentes” de pregações, encíclicas, documentos e viagens a todos os cantos do mundo. “Não tenham medo! Abram as portas ao Cristo”, foi a linha mestra de todo o seu pontificado. João Paulo II testemunhou a enormidade do humanismo ateu, mas também sua solidão, fealdade e esterilidade. Em resposta, articulou o ponto de vista inspirador do humanismo cristão que repercutiu, em especial, entre os jovens. “O homem não pode viver sem amor”, escreveu na Redempor Hominis: “Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente” (RH §10). Weigel relata a incansável produção do pontificado de João Paulo II, a promoção de uma sociedade livre baseada na verdade moral sobre a pessoa, seu diálogo com os judeus, seu trabalho na África, na América Latina e na Europa Oriental, suas iniciativas ecumênicas e inter-religiosas, as audiências das quartas-feiras sobre a teologia do corpo que propunha a um mundo materialista uma visão bela, digna e terna da sexualidade humana. “Uma forma de pensar o extraordinário alcance do Magistério de João Paulo II”, observa Weigel “é imaginar o ensinamento de João Paulo II como um conjunto de chaves para abrir e compreender os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Cada um dos itens da agenda do Concílio [...] recebeu uma interpretação autorizada num ou noutro documento [...]. João Paulo II fez com que a alegria do Evangelho se tornasse algo vivo para milhões de pessoas e inspirou toda uma geração de jovens vocações, cujos frutos estamos começando a ver. No fim da vida, milhões de jovens vieram vê-lo. E, no dia 2 de abril, suas palavras finais aos jovens foram: “Procurei por vocês. Agora, vocês vieram a mim. Obrigado”. João Paulo II tornou o cristianismo uma verdadeira opção para milhões de pessoas. Weigel relata a passagem do cardeal espanhol Julian Herranz, normalmente reservado, dizendo a um repórter: “A Igreja está viva. Olhe para todos esses jovens e você poderá ver nos seus rostos, a Igreja vive”.

O capítulo seguinte sobre o conclave, repassa brevemente a história, a forma, por vezes, confusa, de como os papas foram escolhidos ao longo dos anos, e então reproduz o “diário do conclave”. Weigel analisa os vários escrutínios e as agendas dos cardeais, os documentos minuciosamente examinados pela imprensa com que tinham de operar e dizer algo sobre alguns dos trapaceiros que tentaram politizar o conclave ou desacreditar certos cardeais com ataques pessoais. Um dos ataques específicos, é claro, foi dirigido ao cardeal Ratzinger pelo jornal Sunday Times de Londres e que, segundo Weigel “caiu em desgraça” por tentar relacionar Ratzinger com os nazistas. Weigel retoma a inesquecível homilia e o discurso de “não-campanha” na abertura do conclave, quando Ratzinger falou da “ditadura do relativismo” e delimitou novamente as linhas da batalha, presentes desde Platão, de se o homem ou Deus é a medida de todas as coisas.

O “diário do conclave” revela a humanidade da Igreja em toda a coragem, as confusas motivações e a fragilidade humana, misturadas com a profunda fé dos cardeais, a confiança em Deus, o compromisso com o Cristo e a Igreja, e a obra do Espírito Santo em conduzi-los a escolher o sucessor de Pedro. Weigel busca a razão subjacente à escolha de Ratzinger, e a variedade de reações que ela provocou: a alegria em alguns setores da Igreja e o choque e a raiva de outros. Algumas reações negativas incluíram umas poucas na Igreja Norte-americana, que pareceu aparentemente deprimida com a perspectiva de um papa que manteria o “conservadorismo” de João Paulo II, e, como Weigel mostrou “caíram vítimas da confusão que atormentara muitos outros [...] a confusão da doutrina católica com a opinião pessoal do papa”. Outros, no entanto, permaneceram em êxtase, dentre eles a imensa multidão na Praça de São Pedro e muitos dos próprios cardeais. Um funcionário do Vaticano observou que o Cardeal Arinze estava tão feliz que parecia que ele iria começar a dançar dentro da Capela Sistina.

Weigel defende que Ratzinger foi eleito exatamente porque os cardeais agiram conforme os termos e as necessidades da Igreja, e não com base em maquinações políticas ou na especulação dos meios de comunicação. A época também pedia por um homem como Joseph Ratzinger. Os cardeais também o conheciam bem e viram nele um sinal da solidariedade humana e “um homem de verdadeira comunhão”, bem conveniente para os tempos difíceis em que se encontram o mundo e a Igreja.

Apesar de alguma oposição, muitos católicos sentiram certo alívio com a eleição de Bento XVI. A morte de João Paulo II foi muito difícil de suportar e, como escreveu Nancy Gibbs, da revista Time“nos sentimos menores quando nosso pai morre porque ele era forte e nos animava, nos carregava e nos ensinava, e quando ele se vai sentimos que o espaço parece muito grande sem ele”. Para muitos, Bento XVI foi um conforto, e seu modo conciliador e íntimo de João Paulo II fez com que a morte do amado pontífice fosse mais suportável. Wojtyla e Ratzinger se encontraram pela primeira vez por recomendação de Josef Pieper (1904-1997) que recomendou com insistência a Ratzinger que entrasse em contato com Wojtyla, após ouvir o cardeal polonês dar uma palestra num congresso na Itália. A partir daí começaram três décadas de colaboração. Weigel nota que os dois se respeitavam profundamente. Ratzinger admirava a inteligência, o carisma e a profunda fé de Wojtyla, e Wojtyla reconhecia a percepção e a profundidade teológica de Ratzinger como maiores do que as suas. Ratzinger lembrou de uma “simpatia espontânea entre nós enquanto falávamos [...] sobre o que deveríamos fazer, sobre a situação da Igreja”. Depois de se tornar papa, João Paulo II pediu a ele para dirigir um dos mais importantes setores da cúria – a Congregação para a Doutrina da Fé. Esses dois homens eram, de muitas formas, diferentes – um era extrovertido e artista, o outro, estudioso e reservado. No entanto, ambos tinham uma fé profunda, um rigor intelectual e experimentaram, embora de modos diversos, os horrores da experiência nazista. Os dois entenderam que as idéias, de fato, têm conseqüências e reconheciam que precisavam voltar às fontes do cristianismo e a urgência em propô-lo novamente ao mundo moderno – não pela força, nem pelo assim chamado, “diálogo” que muitas vezes resulta em confusão ou capitulação, mas por uma forma refletida e respeitosa, que reconhece a verdade e preza a liberdade dos indivíduos. Assim como João Paulo II, Ratzinger viu o cristianismo como o antídoto ao ateísmo moderno. Quando jovem ele também experimentara a Igreja como “santuário contra o mal”.

Os capítulos finais “The Making of a New Benedict” [Os bastidores de um novo Bento] e “Into the Future” [Em direção ao futuro] apresentam um breve resumo da vida de Bento XVI e discutem os primeiros dias e temas de seu papado. A verdadeira imagem de Joseph Ratzinger mostra um homem muito diferente das caricaturas dos meios de comunicação de “Rottweiler de Deus” ou da noção de que Bento XVI “estava a ponto de encomendar caixas de instrumentos de tortura” para punir os dissidentes. Ao contrário vemos um homem gentil, zeloso, tolerante, firmemente comprometido com a verdade e que se importa, profundamente, com a Igreja e seu rebanho.

Weigel relata novamente os fatores intelectuais, pessoais e históricos que moldaram o homem que se tornaria o papa Bento, desde a infância na Bavária com a amorosa família até o recrutamento militar. A coragem do futuro papa pode ser vista, desde aquela época quando o oficial encarregado perguntou a cada um dos meninos o que eles queriam ser, e o jovem Joseph respondeu que queria ser padre. Vemos sua curiosidade intelectual e seu amor pela música, especialmente por Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Weigel relata o período de Ratzinger durante o Concílio Vaticano II, seu trabalho como professor e os tumultuados anos de 1967 a 1969, períodos que moldaram o futuro cardeal e papa. Vemos o cardeal trabalhando na Comissão de Doutrina e Fé e alguns dos casos de muita repercussão, tais como o de Charles Curren, Leonardo Boff e os problemas com a Teologia da Libertação. Durante todo o tempo que lá ficou continuou a nutrir o desejo e a esperança de retomar o trabalho teológico. Por três vezes Ratzinger pediu ao papa João Paulo II para se aposentar, e por três vezes foi pedido para que ficasse. Com a eleição de um novo papa e as novas indicações para a cúria, ele ansiava pela aposentadoria na Bavária e finalmente pensava que esse tempo havia chegado. Weigel cita uma conhecida passagem do final da obra Lembranças da minha vida. [Paulinas, 2006] de Ratzinger, onde ele antevê o futuro chamado. Ao refletir sobre os comentários de Santo Agostinho (354-430) aos Salmos, onde fala de ter se tornado um animal de tração a serviço de Deus, e a lenda do urso que se transformou num burro para servir a São Corbiniano (670-730), Ratzinger também via seu trabalho como bispo, em vez de acadêmico, como um urso transformado em burro a serviço de Deus. “Eu levei minha carga para Roma e ando com ela há muito tempo pelas ruas da Cidade Eterna. Quando serei solto, não sei; o que sei é que também para mim vale: ‘Teu jumento eu me tornei, e assim, exatamente assim, é que estou contigo’ (p. 140). E Weigel comenta: “E ele ainda teria mais uma carga para carregar”.

Entretanto, apesar de suas tarefas na Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger continuou seu trabalho intelectual e, mesmo depois de se tornar papa, seu trabalho intelectual não diminuiu. Além das numerosas audiências, ele já lançou duas encíclicas de grande riqueza teológica e uma reflexão pessoal sobre Cristologia na obra Jesus de Nazaré [Editora Planeta, 2007].

O que o futuro reserva para a Igreja guiada por Bento XVI? Por ter passado vinte anos na cúria, o Papa está bastante ciente dos desafios que a Igreja terá de enfrentar. Nos primeiros dias, os temas do papado foram expostos em homilias teologicamente ricas. Bento XVI reafirmou o clamor de João Paulo II para não termos medo e para “lançar as redes em águas mais profundas”. Ele continua a obra de João Paulo II ao propor novamente o Cristo, especialmente ao ocidente secularizado e como uma alternativa excitante, satisfatória para a esterilidade e solidão que deriva do secularismo. “Não somos produtos, casuais e sem sentido, da evolução” diz Bento XVI, “cada um de nós é o resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é dotado de vontade, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário”.

Um tema chave de seu papado é a redescoberta ocidental das raízes cristãs e, com isso, um respeito mais profundo pela razão. Os regimes assassinos do século XX foram, em parte, o resultado de uma racionalidade limitada – no final das contas, irracional – que infelizmente chega até os dias de hoje. O pronunciamento de Regensburg, muitíssimo mal compreendido, foi exatamente um chamado para ampliar o conceito de razão além do empírico e para incluir o raciocínio lógico e moral. Como seu predecessor, Bento XVI estava profundamente preocupado com a liberdade humana, mas a liberdade corretamente compreendida. A liberdade não pode estar separada da verdade ou da razão – caso contrário ela finalmente levaria a escravidão e morte. Como, de modo sucinto, explica Weigel:“Relativismo, ceticismo e niilismo ligados à moderna tecnologia, mata; essa foi a lição da primeira metade do século XX. Relativismo, ceticismo e niilismo também conferem esterilidade à cultura” como podemos ver no declínio das taxas de nascimento em toda a Europa ocidental. Essa esterilidade que é o resultado da desesperança é o desafio enfrentado pela Igreja, aquele para o qual Bento continua a chamar atenção.

Weigel mostrou muitos desafios para a Igreja, desde a nova concepção da diplomacia vaticana, a reforma da cúria e do episcopado, o diálogo inter-religioso, dentre outros desafios e oportunidades que a Igreja tem de se deparar junto aos jovens, à América Latina, aos novos movimentos religiosos e à liturgia. Embora os problemas persistam, Bento XVI herdou de João Paulo II uma Igreja de promessas de evangelização e re-evangelização do mundo, e as encíclicas Deus Caritas Est e Spe Salvi têm, novamente, reescrito em prosa, a riqueza da fé para um mundo desesperadamente necessitado de esperança e de amor autêntico.

Por que o nome Bento? O Cardeal Ratzinger observou que gostava do nome Bento para nome papal. Mas, além do mero gosto, o nome invoca o grande São Bento, fundador do monaquismo ocidental que enfrentou um ocidente em desordem. São Bento e seus monges não só preservaram o saber clássico, como foram instrumentais em unir Roma, Grécia e Jerusalém na grande síntese que se tornou a Europa e o ocidente. “O novo Bento”, escreve Weigel, “como diz o nome, vê a possibilidade de uma nova idade das trevas no horizonte”. O relativismo é uma das vias. Sem um saudável respeito pela verdade, a liberdade não pode ser preservada. O fastio espiritual é outra via. Ele também “percebe uma possível idade das trevas se formando nos laboratórios” onde a vida humana é manipulada. No entanto, Bento XVI não é pessimista. É um homem cheio de esperança, embora com um pé firme na realidade. Weigel escreve que “Bento XVI escolheu seu nome porque queria que a Igreja fizesse, no século XXI, o que Bento de Núrsia e suas comunidades monásticas fizeram para um outro mundo em transição: preservar o que há de melhor dos feitos civilizatórios, ao mesmo tempo em que combina isso a uma compreensão mais nobre e verdadeira de quem somos [...]. Weigel observa o sentido profético quando “Joseph Ratzinger adentrou na galeria da Basílica de São Pedro” muitos dos seus pensamentos voltaram para o final da obra After Virtue [Depois da virtude. Edusc, 2001] de Aladair MacIntyre, a respeito do cenário moral do ocidente, infestado de relativismo, emotivismo e voluntarismo. MacIntyre compara essa idade das trevas da moral com a queda de Roma, mas agora “os bárbaros não estão esperando além das fronteiras, eles já nos governam por um bom tempo. E é a nossa falta de consciência daquilo que constitui parte de nossa situação desagradável. Não estamos esperando por um Godot, mas, sem dúvida, por outro São Bento bastante diferente”.

God’s Choice é um relato inspirador e atrativo do final de um pontificado e do início de outro. Revela a humanidade e a fé de dois homens extraordinários e da missão da Igreja para a qual foram chamados a governar. Bento XVI foi, de fato, a escolha de Deus, aquilo que a Igreja e o mundo precisavam.

Michael Miller
Diretor de Programas e Educação do Acton Institute for the Study of Religion and Liberty