The Courage to be Catholic: Crisis, Reform, and the Future of the Church

Samuel Gregg

George Weigel
New York: Basic Books, 2002. (260 páginas)

Em 2002, a Igreja Católica norte-americana foi tomada por uma crise de proporções sem precedentes. Denúncias após denúncias, vieram à tona vários desvios sexuais – predominantemente de natureza homossexual – cometidos por padres diocesanos e religiosos que pareciam abarrotar, todos os dias, os jornais de Los Angeles a Boston. Igualmente revoltantes foram os detalhes sobre o modo como os bispos dos Estados Unidos acobertaram tais fatos e, em alguns casos, na verdade, permitiram, por décadas, o abuso sexual de meninos, adolescentes e jovens cometido pelos padres. Até aí, a poeira já havia assentado: um cardeal e vários bispos pediram demissão de suas funções, uma série de padres abandonou a Igreja ou foi entregue nas mãos das autoridades civis e a reputação pública da Igreja Católica foi abalada.

Não é de espantar que a crise de abuso sexual tenha impelido muitos intelectuais católicos a fazer um exame de consciência. Um bom número deles afirmou que a raiz da crise repousa na estrutura supostamente “autoritária” da Igreja e na sua recusa em abraçar a agenda de libertação sexual, que vicejou nos anos sessenta e setenta do século XX. Tais explicações não surpreendem, já que essas queixas a respeito da Igreja Católica são feitas por teólogos dissidentes – e pelos críticos seculares da Igreja – desde a época do Concílio Vaticano II.

Uma análise diferente e profundamente católica da crise foi feita pelo teólogo americano e biógrafo papal, George Weigel. Talvez ele seja mais famoso por sua profunda e aclamada biografia do falecido Papa João Paulo II, Testemunha da Esperança (Witness to Hope: The Biography of Pope John Paul II. HarperCollins, 1999). Weigel é um intelectual prolífico, que escreveu sobre vários assuntos, que variam desde a teoria da guerra justa até o seu mais recente livro Fé, razão e a guerra contra o Jihadismo(Faith, Reason, and the War Against Jihadism: A Call to Action. Doubleday, 2007). No livro The Courage to be Catholic (A coragem de ser católico), Weigel traça uma história equilibrada dos acontecimentos de 2002, detalhando o desdobramento da crise que teve como epicentro imediato a divulgação de alguns casos particularmente desagradáveis, ocorridos na arquidiocese de Boston, porém, rapidamente fez aparecer casos semelhantes em todo o país, em especial na Califórnia e em certas províncias específicas da Companhia de Jesus.

A análise de Weigel dos escândalos sexuais que puseram a Igreja Católica norte-americana de joelhos não é, no entanto, simplesmente um resumo do acontecido. É um convite para pensar, teologicamente, a respeito da natureza do catolicismo, do papel dos bispos, da natureza do sacerdócio e do poder do justo credo – a ortodoxia –, para dar vida ao Corpo de Cristo, e, de modo inverso, para compreender como as falsas interpretações dessas funções e como o predomínio do dissenso – ou, da forma como era anteriormente chamado, heresia – pode corromper a vida da Igreja.

As raízes da crise de 2002, segundo Weigel, repousam naquilo que ele chama de “uma ecologia eclesial danificada”. Em parte, essa ecologia tem sido destruída, afirma o autor, pelas forças desencadeadas pela contracultura, que emergiu na Europa ocidental e na América do Norte, nos anos sessenta do século XX, especialmente com relação à ética sexual. A visão católica de família e de casamento foi diretamente desafiada por tal cultura, e não poucos católicos – tanto clérigos como leigos – mais ou menos sucumbiram ao credo de um estilo de vida libertino, com suas impensáveis disposições anti-autoritárias (exceto com relação à cultura da autoridade auto-referenciada), e a relutância básica em aceitar a idéia de que há uma verdade para além das ciências físicas e de que tal verdade pode ser conhecida pela razão e confirmada pela revelação.

A outra raiz da crise, entretanto, repousa, justamente, no que Weigel descreve como a cultura da discordância que infestou muito da vida da Igreja, nos Estados Unidos, logo após o Concílio Vaticano II, e que chegou ao auge logo após a encíclica Humane Vitae (25 de julho de 1968) do Papa Paulo VI. Idéias defeituosas – ou seja, idéias heréticas – em assuntos que iam desde contracepção, aborto, homossexualidade até a ordenação sacerdotal passaram a existir como norma, e eram ensinadas, por muitos teólogos norte-americanos, em seminários e universidades por todo o país. Muito disso foi facilitado pela quase obsessão, por parte de muitos intelectuais católicos, pela linguagem da terapia, que veio a substituir, em grande parte do discurso católico, vocábulos como fé, graça, lei natural, razão, livre-arbítrio, florescimento humano e pecado.

Um determinado grau de conduta sexual imprópria sempre fez parte da vida da Igreja – como em qualquer aspecto da vida humana, marcado pelo pecado e pela fraqueza dos homens. Mas, na atmosfera do final dos anos sessenta do século XX, um modo viciado de pensar a ética sexual se concretizou em prática na vida de muitos seminaristas e do clero católico. Afinal de contas, se os seminaristas constantemente ouvem eminentes teólogos católicos afirmar que atos homossexuais são, em alguns casos, aceitáveis, ou até mesmo, escolhas desejáveis, então, não demorará muito para que esses mesmos seminaristas comecem a sentir atração por pessoas do mesmo sexo e racionalizem sua opção por tais atividades, que a Igreja – e a lei natural – sempre entenderam como fundamentalmente desordenadas. Em tais circunstâncias, a escolha para agir, com base em impulsos homossexuais – e, como observa Weigel, o abuso sexual de rapazes jovens e adolescentes (i.e., atos homossexuais) foi esmagadoramente superior à pedofilia – se torna muito mais provável.

Nesse ponto, Weigel salienta a falta de interesse de um grande número de bispos católicos, nos Estados Unidos, pelo fluxo constante de casos de abuso sexual que parecem ter aumentado no final dos anos sessenta e durante os anos setenta, do século passado. Parte dessa falta de interesse, demonstra o autor, deriva da incapacidade e, muitas vezes, da relutância em enfrentar o crescimento do dissenso, nos seminários católicos e nas universidades. No fim das contas, é o bispo o responsável pela sã doutrina em sua diocese, e muitos bispos norte-americanos simplesmente deixaram de cumprir tal tarefa. Os motivos variam. Algumas vezes, isso ocorreu porque eles mesmos, em maior ou menor grau, abraçaram a cultura da dissensão e/ou estavam, pessoalmente, comprometidos em atividades sexuais ilícitas. De modo mais geral, no entanto, isso derivou de um modelo do que seria ser bispo adotado por muitos bispos norte-americanos, após o Concílio Vaticano II.

Em vez de pastor de almas, cuja responsabilidade primordial deveria ser assegurar a sã doutrina e o ensinamento da fé católica, muitos bispos começaram a ver a si mesmos como “gerentes”, cuja tarefa seria presidir diferentes “facções” dentro da diocese e aprovar compromissos de tipo político, que satisfariam as preferências da maioria dos membros de seu rebanho. Tal interpretação do papel do bispo não só é estranha a toda a tradição católica e ao ensinamento do Concílio Vaticano II, como também torna o bispo relutante para enfrentar o dissenso e outras formas de pecado. Ao contrário, o pecado –onde podemos incluir o abuso sexual – se torna um problema a ser “gerenciado” (invariavelmente, por intermédio de terapias que quase nada tem em comum com o autêntico juízo católico sobre a pessoa humana) e resulta em monstruosidades tais como a transferência rotineira de padres sexualmente predatórios de paróquia em paróquia.

Se, como Weigel defende, a causa fundamental da crise de abuso sexual foi a infidelidade ao ensinamento ortodoxo católico, a conseqüente solução é, primeiramente, a aceitação da verdadeira natureza do problema e, em segundo lugar, chamar a atenção, inicialmente dentre os católicos – leigos e clérigos – para um modo de vida jovial que abrace a ortodoxia católica em sua completude. Embora Weigel acredite que muitos leigos católicos e jovens sacerdotes e bispos compreendam que abraçar o caminho da santidade é algo essencial e não opcional, o autor esclarece que, ao menos, entre 2002 e 2004, pareceu faltar coragem a muitos sacerdotes e bispos católicos mais idosos com relação a esse aspecto. A respeito disso, Weigel justifica, de modo convincente, que parte do problema é a estrutura da Conferência norte-americana de bispos que tende a facilitar a abordagem “gerencial” dos problemas em vez de promover soluções que tenham por guia a sabedoria do ensinamento da Igreja.

Muito mais já transpirou, na Igreja Católica norte-americana, desde a publicação do livro de Weigel. Em 2007, a arquidiocese de Los Angeles liquidou centenas de alegações de abuso sexual ao pagar centenas de milhões de dólares às vítimas. Curiosamente, o arcebispo de Los Angeles, Cardeal Roger Mahoney, aparentemente não sentiu necessidade de renunciar, após o resultado de tais eventos, embora as quantias pagas e o número de alegações de abuso sexual tenham excedido em muito os da arquidiocese de Boston, cujo arcebispo, o Cardeal Bernard Law, por fim, renunciou. Várias dioceses foram forçadas a declarar falência para lidar com catástrofes financeiras semelhantes.

Do lado positivo da questão está a visita apostólica, realizada em todos os seminários dos Estados Unidos. Esperamos que tais visitas tragam frutos. Mas, como observa Weigel, a verdadeira reforma só ocorrerá, se os católicos abraçarem a “fidelidade – sem apologias, sem ambigüidades, uma fidelidade entusiasta da totalidade da verdade católica” (p. 245). Uma liderança eficaz, por parte dos bispos, também é essencial. Não obstante, Weigel deixa claro que o caminho para a verdadeira renovação da Igreja, nos Estados Unidos repousa na escolha, por parte dos católicos, em viver um caminho que envolve aspirar à grandeza espiritual e moral, ao invés de obscurecer e diluir a fé católica e preferir a mediocridade. É claro que tal mensagem não se aplica, exclusivamente, aos católicos norte-americanos. Caso o fosse, ela não teria sido compreendida por gigantes tais como Santo Agostinho (354-430) ou Santo Tomás de Aquino (1225-1274), que, em suas épocas enfrentaram várias formas de corrupção entre os católicos. Por fim, é uma mensagem que expressa o destino batismal de todos os católicos, onde quer que se encontrem.

Samuel Gregg
Diretor de Pesquisa do Acton Institute for the Study of Religion and Liberty e Membro do Conselho Editorial do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP)