Um aliado na defesa da liberdade

Gerald Zandstra

Ex-Diretor do Center for Entrepreneurial Stewardship do Acton Institute

Sou um pastor ordenado da Igreja Reformada ou de credo calvinista holandês. Minha experiência com católicos, mais especificamente com católicos poloneses, começou em Grand Rapids, em Michigan, local onde fui criado. A maioria das pessoas da minha vizinhança ou era holandês reformado ou católico polonês.

A linha divisória entre nós era clara. Cada um frequentava sua própria igreja e escola (que não eram públicas), cada uma mantida para o uso dos respectivos grupos. Um casamento entre os filhos dessas famílias seria um escândalo para ambas. Nada em minha infância desafiou essa realidade. Pouco da minha experiência no seminário ou no College contrariou o que aprendi na juventude.

A interação com companheiros de trabalho, amigos católicos e algumas leituras que fiz resultaram numa compreensão mais profunda da história recente. Essas coisas também me levaram do mero interesse ao apreço profundo por João Paulo II. Ele foi o papa da liberdade e da dignidade humanas. Seu passado na Polônia, sob várias formas de totalitarismo, o ensinou uma lição “do que não deve ser” que ele nunca mais esqueceria, até mesmo na hora da morte.

A visão de sociedade de João Paulo II unia dois pólos. Ele não defendia nem a completa liberdade, nem a virtude imposta. Liberdade e virtude se complementavam. São dependentes uma da outra. A liberdade é o contexto no qual as pessoas fazem escolhas virtuosas. A liberdade para o papa João Paulo II não era um conceito etéreo. A Encíclica Centesimus Annus de 1991 foi uma chamada para os católicos e, na verdade, para todos os cristãos, para levarem a sério a liberdade, especialmente no campo econômico. Não é o endosso de um determinado tipo de estrutura econômica. Sua condenação ao comunismo casou-se com o medo de que os que viessem do totalitarismo imergissem no consumismo.

A visão e perspectiva do papa sempre foram maiores do que os assuntos particulares de uma determinada situação econômica ou política. O que é notável é sua visão de liberdade e moralidade. Os cristãos, ao participarem do mundo dos negócios, não participam do mal necessário. Ao contrário, são chamados a elevar seu pensamento, de forma que os trabalhos se tornem vocação e uma das formas primárias de servir à Deus.

O papa João Paulo II sabia que os estados de bem estar social eram invasivos e nunca iriam alcançar o poder salvífico da caridade privada, tanto para o rico quanto para o pobre. A Teologia da Libertação, com a bizarra mistura de marxismo e cristianismo, só poderia levar à maior opressão e pobreza. O comunismo cairia porque no fundamento era moral e economicamente corrompido, e combinava uma antropologia ruim com uma visão econômica falha. Era só uma questão de tempo.

De muitas formas, apesar das diferenças teológicas, achei na vida e pensamento de João Paulo II um aliado e uma defesa bem estruturada de uma sociedade livre e virtuosa. Tive dois arrependimentos ao ouvir a notícia de seu falecimento. O primeiro é de não ter tido oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. O segundo é de não ter aprendido mais sobre ele no início da minha carreira acadêmica. No futuro, os protestantes terão uma oportunidade de conhecê-lo e encontrá-lo por intermédio dos numerosos artigos e livros. Espero que eles aproveitem essa oportunidade.