A reforma dos sistema de indenizações civis e o fim dos heróis

Gerald Zandstra

Ex-Diretor do Center for Entrepreneurial Stewardship do Acton Institute

Semana passada, minha esposa e eu levamos dois de nossos três filhos para ver o filme Os incríveis. Se você não tem filhos pedindo para ir ao cinema e pensa que esse filme não tem uma mensagem aplicável a adultos, permita-me corrigi-lo. É um filme poderoso, tanto no enredo e na animação quanto nas lições morais.

O Sr. Incrível é um dentre os muitos super-heróis que combatem o crime e, como poderíamos imaginar, faz boas ações. Durante um incidente, o Sr. Incrível salva um homem de se atirar do alto de um prédio. Acontece que o homem não queria ser salvo e retribui a boa ação fazendo com que o Sr. Incrível responda a um processo judicial. Por fim, a ação judicial faz com que todos os super-heróis se aposentem e vivam disfarçados num programa de proteção do governo. A trama do filme gira em torno de viver numa sociedade litigiosa, onde o triunfo daqueles que insistem em ter um dom ou um talento especial faz com que sejam forçados à mediocridade.

A mensagem é formidável, apesar da idéia de super-heróis salvando o dia ser obviamente exagerada. Enquanto pensava sobre o filme, percebi que a litigiosidade e a mediocridade são alguns dos maiores obstáculos de nossa cultura. A propensão em resolver cada disputa por meio de ações judiciais acaba com valores tais como confiança e perdão, essenciais para a manutenção de uma verdadeira comunidade. O medo da recompensa ou de alcançar a excelência desencoraja as pessoas a buscar cumprir seus potenciais dados por Deus.

A estória do Sr. Incrível é na verdade mais comum do que a maioria de nós acredita ser. Pedi a um amigo que me relatasse a história do pai para ilustrar minha posição. Ele escreveu:

“Meu pai é um ginecologista e obstetra aposentado. Ele estudou na Universidade Notre Dame e depois na Loyola Medical School. Após fazer a residência em Chicago, ofereceram a ele uma incrível colocação num hospital em Chicago, que o poria no topo dos obstetras e ginecologistas, numa época (final dos anos sessenta) em que esse campo estava a beira de uma mudança extraordinária.

Meu pai recusou esse emprego. Ele decidiu voltar à sua cidadezinha natal de Escanaba em Michigan. Escanaba é uma cidade de 12.000 habitantes localizada no extremo norte da península. Lá ele poderia retribuir à comunidade onde cresceu e que o deu tantas alegrias. Ele seria o primeiro especialista em ginecologia e obstetrícia que a comunidade já tinha visto. Durante o final da década de sessenta, durante a década de setenta e o início dos anos oitenta, meu pai foi o único especialista num raio de 45 milhas de Escanaba. Ele curtia as longas horas, as noites intermináveis, os telefonemas a qualquer momento e a inefável alegria de trazer à luz uma nova vida humana para a cidade que tanto amava. Seu compromisso com essa comunidade era heróico e incansável. Sua relação com a comunidade era íntima. Ele fazia mais de uma centena de partos a cada ano e cuidava as mulheres da cidade e dos arredores com carinho e humanidade durante alguns dos momentos mais traumáticos de suas vidas.

No meio da década de oitenta, os prêmios dos seguros por imperícia se tornaram tão onerosos (cerca de 150.000 dólares ao ano) que ele foi forçado a considerar a hipótese da aposentadoria. O problema do prêmio do seguro juntamente com a nova e apavorante realidade de ter de olhar para cada novo paciente ou caso como uma ação judicial em potencial começou a tirar dele a alegria e a satisfação em trabalhar.

No início dos anos noventa, meu pai respondeu duas vezes como réu em dois processos sobre partos difíceis, em que tinha sido chamado a participar no último minuto porque era um especialista. Nessas duas ações foi interrogado por um advogado especializado em danos civis do sul de Michigan que o tratou de modo tão incivilizado e desrespeitoso que, por fim, a alegria de meu pai em atender os clientes acabou. Os prêmios dos seguros eram ultrajantes, os advogados estavam em toda a parte e a exigência era de bebês perfeitos ou algo mais.

Infelizmente, em 1995, meu pai se aposentou ainda novo, aos 59 anos de idade. A prática médica que amava se tornou uma potencial exposição a algo que ele não poderia pagar, e um ambiente hostil que ele nunca entendeu. A cidade de Escanaba, em Michigan, perdeu um dos maiores médicos que já teve, irá ter ou tem a honra de chamar de Dr. Bill. Foi algo trágico, mas completamente evitável”.

A vocação do Dr. Bill, seu dom, foi tirada. Ninguém ganhou, mas toda a população de Escanaba perdeu.

A estória do Sr. Incrível se torna realidade na história do médico. Milhares de outras histórias semelhantes testemunham a profunda necessidade de uma reformulação no sistema de indenizações civis nos Estados Unidos. Os pastores têm medo de aconselhar as pessoas. As enfermeiras ficam nervosas ao atender os pacientes. Os fabricantes aumentam o custo de seus produtos por conta da constante ameaça de ações judiciais. Os restaurantes avisam as pessoas que o café é quente e que não deve ser posto no colo. Num determinado momento isso se torna simplesmente ridículo e qualquer sentido bíblico de justiça é perdido.

É claro que precisamos manter caminhos para fazer justiça aos que sofreram danos pelas ações de outros. Mas sem limites, sem o exercício da prudência, sem qualquer ponderação do que estamos fazendo a nós mesmos e à nossa cultura, corremos o risco de nos condenar ao esquecimento.