O legado de João Paulo II

José Nivaldo Gomes Cordeiro

Vice-Presidente do Conselho Fiscal do CIEEP

As emocionantes imagens da Cidade do Vaticano, desde o inicio da doença terminal do pontífice, culminando com seu apoteótico sepultamento mostraram alguns fatos que precisam ser sublinhados, pois contrariam o senso comum: 1) A Igreja está viva e seu patriarca muito fez para divulgá-la e engrandecê-la. Evangelizou o mundo utilizando a mídia; 2) O Vaticano tornou a ser, se é que algum dia deixou de sê-lo, o epicentro da civilização cristã. A câmara parada, dando a panorâmica da Praça de São Pedro, forma uma imagem impressionante da multidão compenetrada, rendendo homenagem ao homem morto; 3) Nada do que temos e somos enquanto ocidentais existiria sem a morte e a ressurreição de Cristo, que tem na Igreja a sua testemunha e a sua divulgadora, pois é a portadora da Boa Nova; 4) Um homem velho e alquebrado, visivelmente doente e vestido de forma antiquada tornou-se digno da admiração da juventude e o centro das atenções dos meios de comunicações mundiais, contrariando o culto juvenil habitual e o que dizem os manuais de marketing; 5) O papa foi no seu tempo de vida e mais ainda na ocasião do seu passamento a grande estrela, a maior de todas; 6) A verdade moral dos Evangelhos, incansavelmente divulgada pelo pontífice, em um discurso aparentemente contra a corrente hedonista predominante, triunfou. O suposto reacionário é o pastor aclamado pelas multidões. Havia milhões de ouvidos preparados para ouvir a sua mensagem.

E não deixa de ser sensacional ver que os grandes e poderosos do mundo foram render-lhe as últimas homenagens, homens de todas as procedências e de todas as fés. Foi o reconhecimento da superioridade moral do santo homem. Seu carisma foi reconhecido e reverenciado. João Paulo II pairou sobranceiro sobre os poderes desse mundo, tornou-se referência e ganhou o respeito de toda a gente. Esse fato é mais do que simbólico.

Não há dúvida de que a Igreja Católica parte para o terceiro milênio renovada e fortalecida pela figura beatífica do papa falecido, talvez o maior dos homens que fizeram o século XX. Sua grande obra foi dar força para que a Igreja se remoçasse na Tradição, se rejuvenescesse na reafirmação das verdades permanentes, se engrandecesse na perenidade dos ensinamentos do próprio Cristo. João Paulo II mostrou que aqueles que querem fazer concessões para um suposto crescimento da Igreja estão errados. Não pode haver modismos com as coisas sagradas, que são eternas. O que rejuvenesce a igreja é a adesão dos jovens à fé e não a renúncia à Verdade.

Vi na TV um desses teólogos meia-boca, comunista, comentando o episódio evangélico da mulher adúltera, em defesa das mudanças na moral sexual, supostamente para salvar pessoas de doenças sexualmente transmissíveis. Um farisaísmo evidente. Sofisma em cima de sofisma. Cristo perdoou a pecadora, mas não defendeu o pecado e nem o aboliu. “Vá e não peques mais”. Há, podemos dizer, a autonomia do mal. Pecamos todos e pela graça de Deus podemos ter o perdão e a redenção, mas não podemos desconhecer a fonte do mal e a sua ação ativa no mundo. Perdoar o pecador não é aceitar o pecado, mas sim, lutar contra ele, sem tréguas. E é isso que querem que a hierarquia da Igreja faça. Jamais o fará. O “espinho fincado na carne” precisa ser arrancado, mas espinhos continuarão existindo e a espetar a todos nós, especialmente os mais desavisados e desprotegidos por não abraçar a fé genuína. Querem fazer crer que a Igreja é obscurantista por ser assim. É exatamente o contrário: obscurantismo é querer transformar o vício em virtude e o pecado em um bem teológico. Os muitos mortos pela AIDS são as testemunhas macabras do hedonismo demoníaco. Não será o reforço nas práticas hedonistas que salvará essas pobres vítimas.

João de Deus deixou-nos um legado inestimável. Está, pela graça de Deus, na comunhão dos santos.