Um elogio rabínico para o papa

Daniel Lapin

Presidente do Toward Tradition

Que elogio significativo um rabino poderia acrescentar aos muitos tributos sinceros feitos ao Santo Padre, o papa João Paulo II?

A antiga sabedoria judaica dizia que nesse mundo um homem é conhecido pelo pai. Não só o sobrenome, mas muito de sua identidade vem do pai. No entanto, depois do processo de morte nos transformar em espírito, olhamos para nossos filhos e netos em busca de pistas para nossa eternidade. No mundo futuro do espírito, onde tudo é luz e verdade, o judaísmo ensina que cada um de nós será conhecido pelas ações de nossos filhos e filhas.

Mas os filhos não são somente tijolos que deixamos para trás. No mundo que há de vir, seremos conhecidos por todos os nossos últimos feitos, dentre eles filhos valiosos e idéias poderosas.

O papa João Paulo II está, nesse momento, sendo calorosamente recebido nos céus como o pai de um bilhão de valorosos filhos e o progenitor de uma idéia poderosa. Podemos resumir o vasto repertório de coragem e compaixão, a fascinate virtude exibida por décadas pelo papa João Paulo II em uma idéia. Essa idéia é tão poderosa que uniu as muitas facetas de sua vida num brilhante raio de clareza.

A singular coerência do papa era a santificação da vida. Seu raio de clareza era o triunfo da vida sobre a morte. Terri Schiavo, apegando-se a vida, alertou todos os americanos para a verdadeira distinção entre a cultura de morte e a da vida. Talvez, o último papel de Terri fosse anunciar nas alturas a iminente chegada de Karol Wojtyla.

Na esfera política, o papel do papa ao realizar a derrocada do comunismo é bem conhecida. Por que ele detestava o comunismo? Não só porque testemunhou seu mal, mas também porque o comunismo violou a reverência devida à vida. O comunismo é por definição a doutrina do materialismo. Se há qualquer diferença entre matéria e espírito, a diferença está no fato da matéria ser mortal e o espírito eterno. A inata mortalidade do comunismo deriva da ênfase exclusiva sobre a matéria. A liberdade é a matéria do espírito e é eterna. Ao lutar contra o comunismo por toda a vida, o papa comprometia-se corajosamente com a confirmação espiritual da liberdade – a vida.

O papa João Paulo II levantou controvérsias. No entanto, seus pontos de vista nunca foram volúveis, foram unificados pela temática da vida. Ele foi absolutamente consistente com a firme defesa da cultura da vida. Será que pessoalmente concordo com cada uma das posições do papa? É claro que não; ele era o papa e eu sou um rabino. Teologicamente e praticamente ele não falava por mim. No entanto essa não é a questão. A questão é que ele tornou o mundo um lugar melhor para todos que amam a vida e para todos os que reverenciam as palavras no Deuteronômio, “...portanto escolha a vida”.

Sem o papa João Paulo II, a cultura da morte poderia ter feito incursões ainda maiores. Uma aeronave permanece no ar somente porque os motores convertem o combustível em empuxo. Na falta dessa energia, a gravidade por si só poderia arruinar a aeronave. Similarmente, na ausência de uma força de vida espiritual como a que o falecido papa injetou no mundo a cada dia de sua vida, a força gravitacional da morte poderá certamente se espalhar. Qualquer que seja sua fé, esse é um motivo suficiente de gratidão.