A América Latina prisioneira da Teologia da Libertação

Rev. Robert Sirico

Presidente do Acton Institute

A política de esquerda em velho estilo está retornando maciçamente à Amérida Latina. No Brasil, um anti-capitalista assumido e convicto assumiu o poder com uma avalanche de votos.

O primeiro dia do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva terminou com uma ceia junto com Fidel Castro. Ao convívio se juntou também o Presidente da Venezuela Hugo Chávez, que está adotando um programa político de esquerda, prometendo uma repressão total aos assim chamados “terroristas” e “opositores” ao seu regime. No Equador, o novo Presidente Lucio Gutierrez, um coronel reformado, sustenta simpatias políticas similares, prometendo dar maior poder aos pobres mediante a ação do Estado.

Tais plataformas políticas levadas adiante por estes líderes são sustentadas também por alguns componentes religiosos: uma reprodução da teologia da libertação que apela ao reclamo do Evangelho para assistir os pobres, traduzindo-o em um programa político redistributivista, que ameaça o uso da violência e recorre ao sentimento anti-americano para assegurar o poder político.

Com as economias em dificuldades, em meio a uma fase de dificílima recessão, o sentimento anti-globalização é alto, bem como contra a influência americana e a propriedade privada. A percepção de que o modelo econômico “neoliberal” falhou pode conduzir apenas a um posicionamento político em direção ao experimento socialista e autocrático-folclórico segundo o modelo Chávez e Lula, os quais se aprestam a denunciar o bem estar como causa da instabilidade econômica e da pobreza crescente.

Tudo isso traz à memória aqueles dias dos anos 80 quando a teologia da libertação estava em seu apogeu na política da América Latina. Guiada por teólogos-intelectuais, o movimento da teologia da libertação aliou-se aos escusos interesses soviéticos para suscitar a revolução contra as classes capitalistas, mesmo que para avalizar a expropriação, justificando-a em nome de Jesus.

O Papa João Paulo II concuziu a oposição a este desvio teológico e enfrentou com coragem os ditadores daquelas regiões que usaram a religião como pretexto para a legitimização do próprio poder. Neste momento, redistribuição, não revolução, é a palavra de ordem. O ressentimento tem sido orientado contra a globalização, não nos confrontos contra o empreendedorismo enquanto tal.

O retorno da teologia da libertação que se posiciona à esquerda na América Latina é mais populista e nacionalista do que comunista. Concentra-se sobre o controle popular da indústria e sobre o bem estar, mais do que sobre o proletariado. E, o que é mais importante, no momento em que tal nova tendência política está à margem com respeito ao atual panorama político global, é difícil que alguém lhe dedique atenção.

Em um certo sentido, de qualquer modo, isto aumenta o perigo embutido neste nova rodada, se não por razões de política global, peo menos pela situação da população da América Latina. A verdade simples é que as políticas redistributivas, a concentração de poder, a expropriação do bem estar e coisas semelhantes não podem melhorar as condições de vida. Apenas a economia de mercado, uma maior defesa dos direitos de propriedade, o livre comércio e valores mais estáveis podem concorrer para aquele objetivo.

Medidas como a espoliação dos direitos de propriedade, o protecionismo em nome da guerra à globalização e o crescimento dos maiores de dezesseis anos que votam na esquerda não criarão bem estar, apenas certamente aumentarão a dependência e a pobreza. Jamais uma economia cresceu sob o stalinismo. A melhor receita não é o intervencionismo, mas uma abertura comercial maior. Mas o primeiro passo consiste em compreender os perigos que pairam sobre a América Latina no campo da democracia e da liberdade, por conta desta nova esquerda. Para citar Russel Kirk: “a ignorância em boa fé é um luxo a que nenhum de nós pode permitir-se”.