Deus, o homem e o meio-ambiente

Samuel Gregg

Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute

Em 22 de abril, uma grande parte do mundo celebrará o Dia Internacional da Terra. Como muitos modismos, a popularidade desse evento ficou enfraquecida na maior parte do ocidente. Isso pode ter ocorrido porque as calamitosas conseqüências previstas por muitos ecologistas não aconteceram. Apesar disso, muitas pessoas de fé continuam a pregar uma espécie de “Evangelho verde”, alegando que um apocalipse ecológico irá ocorrer a menos que uma série de políticas – normalmente envolvendo várias formas de regulamentação governamental – sejam imediatamente adotadas.

É verdade que o “Evangelho verde” mudou seu credo ao longo dos últimos dez anos. Os fiéis já trilharam um longo caminho desde os dias das procissões de elefantes e das placas de cultura de bactérias na Catedral Episcopal de St. John The Divine em Nova York. Do mesmo modo, o flerte com a pseudo-ciência da teoria Gaia parece estar confinada a um número reduzido de teólogos da libertação, ex-padres e feministas que se autodenominam “eco-teólogas”.

Mas, embora os ambientalistas dentro das comunidades de fé, agora sabiamente se distanciem das tendências neo-pagãs que surgiram nos anos noventa, algumas coisas não mudaram. A primeira delas é o hábito de aceitar acriticamente as previsões de um juízo final ecológico feitas por ativistas ecológicos e alguns cientistas. Associado a isso está o hábito bastante não científico de ignorar qualquer evidência em contrário.

Um segundo problema recorrente é a tendência a considerar os problemas ecológicos como sendo iguais, ou de maior importância, do que a guerra contínua contra a vida humana inocente que floresce, na forma cada vez mais expansiva e cancerosa, da cultura de morte. Certamente, a destruição aleatória e sem sentido do mundo natural é um pecado. No entanto, a comparação dessas ações com a morte dos fetos ainda não nascidos ou com a eutanásia dos idosos, dos doentes ou aleijados, não pode ser conciliada com qualquer teologia moral cristã ortodoxa.

Há também o hábito de associar a responsabilidade ambiental com a intervenção do governo. Raramente chega ao conhecimento dos muitos círculos de ambientalistas cristãos que os maiores poluidores do mundo foram os regimes estatistas que dominavam a Europa Central e Oriental, bem como a ex-União Soviética. Qualquer pessoa buscaria em vão, dentre os escritos dos vários ambientalistas cristãos, encontrar o reconhecimento da força das soluções baseadas na propriedade privada para os problemas ambientais.

A beleza dessas soluções não repousam tão somente na sua eficiência comprovada. A utilidade e eficácia têm lugar na vida moral cristã, mas estão estritamente subordinadas à necessidade de evitar o mal e participar dos bens morais que são o fundamento do aprimoramento humano.

Desse ponto de vista, a força moral das soluções baseadas na propriedade privada devem ser encontradas de forma tal que atribuam responsabilidade direta pelo mundo natural nas mãos de indivíduos de carne e osso. Ao atingir tal patamar, nós mesmos evitamos de negligenciar tais obrigações por delegá-las aos políticos e burocratas.

É claro que nenhuma pessoa pode assumir a responsabilidade por toda a natureza. As soluções dadas pela propriedade privada, contudo, permitem que milhares de indivíduos e comunidades concretizem suas responsabilidades de bons administradores da terra, precisamente por permiti-los exercer o que o livro do Gênesis descreve como o domínio de cada pessoa humana sobre a Terra.

O exercício desse domínio, não é, é claro irrestrito. Se não puder ser moralmente bom, tal domínio deve ser atualizado de acordo com as especificações da lei divina dada por Deus, até mesmo aquela porção que possa ser conhecida pela simples razão humana, ou o que chamamos de lei moral natural. Dizer de outro modo seria sugerir que os seres humanos sabem mais do que Deus sobre a verdade do bem e do mal moral.

Dentro desses parâmetros, no entanto, as soluções que consideram a propriedade privada como parte da solução dos problemas ambientais permitem às pessoas aplicar seus conhecimentos diretamente aos assuntos que as tocar. Nesse sentido, representam uma aplicação concreta do princípio da subsidiariedade nas questões de meio-ambiente.

Isso não significa que o governo não tenha um papel a cumprir nas questões ambientais. As transações humanas no mundo natural não estão numa “zona-franca” da legislação. Qualquer análise mais acurada da subsidiariedade, no entanto, sugerirá que os problemas de meio-ambiente são melhor resolvidos e encaminhados na esfera mais próxima ao problema, até que o indivíduo ou a comunidade provem ser manifestamente incapazes de resolver a questão.

Nesse Dia da Terra, esperemos que os cristãos continuem a se distanciar dos elementos decididamente não cristãos e não científicos dos vários movimentos de meio-ambiente e descobrir as verdadeiras idéias amigas da natureza, que podem ser encontradas dentro de nossas próprias tradições. Essa é uma forma de respeitar a glória da ação criativa de Deus, ao passo que honramos a pessoa humana que está no ápice da criação de Deus.