Bento XVI e a Liberdade

Alejandro A. Chafuen

Tradução de Márcia Xavier de Brito

O pontificado de João Paulo II nos legou ensinamentos papais sem paralelo. Um aspecto chave desse período foi o espaço criado para a obra de outros grandes teólogos.

O novo papa, Bento XVI, anteriormente chamado cardeal Joseph Ratzinger, é um deles. Devido ao forte enfoque sobre a doutrina, muitos somente viram um dos lados desse homem: o protetor da fé, o líder da nova “inquisição”. Poucos destacaram as suas ricas análises sobre a liberdade.

Há cerca de duas décadas, a Congregação de Ratzinger publicou uma severa condenação de certos aspectos da “Teologia da Libertação”. Esse documento desferiu um grande golpe nos elementos mais radicais da Igreja, um golpe que coincidiu com o colapso da utopia atéia soviética. João Paulo II e os teólogos do Vaticano, então, passaram a se concentrar num outro inimigo que afetava tanto o ocidente quanto o oriente: a tirania do relativismo.

Na encíclica Veritatis Splendor, o último papa argumentava que a cultura atual “gera ceticismo em relação aos próprios fundamentos do conhecimento e da ética, e (...) torna incrivelmente difícil apreender claramente o significado do que o homem é, o significado de seus direitos e deveres” Seu objetivo era dar os limites para a prática da virtude como um primeiro passo necessário para a recuperação moral da civilização.

Os liberais clássicos e os intelectuais “moderados” estavam preocupados que após a vigorosa defesa da verdade objetiva na Veritatis Splendor, a Igreja pudesse retroceder ao impor essa verdade pela promoção de uma legislação coercitiva. No entanto, esse não foi o caso. Na época da encíclica, o papa visitou o Sudão, um país de maioria muçulmana, e argumentava vigorosamente que as maiorias não tinham o direito de impor suas concepções morais e religiosas para as minorias. O The Wanderer, um dos jornais católicos mais concervadores, escreveu um editorial a favor de uma visão “libertária” dos pronunciamentos vaticanos no Sudão.

O cardeal Ratzinger concentrou seus ensinamentos sobre a importância das convicções em vez da força. No dia 6 de novembro de 1992, na cerimônia onde Ratzinger foi empossado na Academia de Ciências Políticas e Morais do Instituto de França, explicava que uma sociedade livre somente poderia subsistir onde as pessoas partilhassem certas convições morais básicas e tivessem altos padrões morais. Argumentava ainda que essas convições não necessitavam ser “impostas ou mesmo arbitrariamente definidas pela coerção externa”.

Ratzinger encontrou parte da resposta na obra de Alexis de Tocqueville. “A obra Democracia na Américasempre causou uma profunda impressão em mim”, disse o cardeal. Acrescentou que para tornar possível “uma série de liberdades na Liberdade se vivia em comunidade, o grande pensador político [Tocqueville] via uma condição essencial no fato de que uma convicção moral básica estava viva na América, convicção que, alimentada pelo cristianismo protestante, supria os fundamentos das instituições e mecanismos democráticos”.

No seu trabalho como teólogo, Bento XVI coloca a liberdade no âmago de seus ensinamentos. Possui uma bela forma de explicar a criação, que, segundo ele, deve ser entendida não como o modelo do artesão, “mas como a criatividade, o pensar criativo”. O princípio da criação é “uma liberdade criativa que gera as demais liberdades. Nessa perspectiva, poderíamos descrever o cristianismo como uma filosofia da Liberdade”. O cristianismo explica uma realidade que, “no auge, se ergue uma liberdade que pensa, e pensando, gera liberdades, tornando assim a liberdade a forma estrutural de todo o ser”. Essa liberdade é incorporada na pessoa humana, o único “ser relacionado com o infinito e irredutível. E aqui, mais uma vez, está a opção pelo primado da liberdade como algo contra o primado de alguma necessidade cósmica ou lei natural”. A liberdade humana afasta o cristianismo do idealismo.

Bento XVI argumenta que a liberdade, combinada com a consciência e o amor, abrange a essência do ser. Com a liberdade vem a incalculabilidade – e assim, o mundo nunca pode ser reduzido a uma lógica matemática. Nessa perspectiva, onde o particular é mais importante que o universal, “a pessoa é única e irrepetível, é ao mesmo tempo a coisa máxima e mais elevada. Nessa visão de mundo, a pessoa não é somente um indivíduo; a reprodução emergindo da difusão da idéia na matéria, mas, antes, precisamente, uma 'pessoa'”.

De acordo com Bento XVI, os gregos viam os seres humanos como meros indivíduos, sujeitos à polis(cidade-estado). O cristianismo, no entanto, vê o homem mais como pessoa do que como indivíduo. Essa passagem do individual ao pessoal é o que leva à mudança da antiguidade ao cristianismo. Ou, como diz o cardeal, “de Platão à fé”.

Como um católico romano, eu e muitos outros já estamos profundamente gratos a Ratzinger e seus ensinamentos sobre a liberdade criativa, essa marca característica da “relação com o infinito” de cada pessoa humana. Estamos certos de que o novo papa irá continuar o legado de João Paulo II, colocando a liberdade e a dignidade no centro de seus ensinamentos.

Alejandro Chafuen é diretor adjunto do Acton Institute for the Study of Religion and Liberty e membro do conselho editorial do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP).