A verdade ao mundo: A vida de João Paulo II

Rev. Robert Sirico

É com o coração cheio de pesar que escrevo essas reflexões sobre a vida e o legado de João Paulo II.

Iremos ouvir, nos próximos dias e semanas, um incontável número de comentadores analisando a monumental contribuição desse papa para dignidade e o aprimoramento humanos. Isso podemos afirmar. O ministério de João Paulo II foi ecumênico no melhor sentido da palavra: Ele alcançou povos de todos os credos e esses, por sua vez, perceberam nele uma compaixão e um amor ilimitados.

Existem várias formas pelas quais o legado deixado pelo papa para a Igreja e para o mundo está sendo enunciado. Em algumas versões, há uma visão completamente errônea do ensinamento social do papa.

Para alguns, é simplesmente impossível conceber João Paulo II favorecendo o livre mercado e o governo limitado como caminho normativo para ajudar aos pobres a sair da pobreza, ao passo que, ao mesmo tempo, o papa execrava a cultura do materialismo e do consumismo. Para os que pensam assim, estar ao lado dos pobres significa simplesmente advogar alguma forma de planejamento econômico socialista.

Da mesma forma, se tornou quase previsível que especialistas em Vaticano observassem que, de fato, ao mesmo tempo que a pessoa de João Paulo II fosse carismática e, em muitos aspectos, inovadora e estimulante, seu legado continha uma contradição fundamental. Com sorrisos aprovadores, eles mostravam que o papa era "progressista" na compreensão da "justiça social". Mas os sorrisos se transformavam em muxoxos quando notavam que o papa era "retrógrado e conservador" em teologia moral.

Ao estudar os escritos de João Paulo II por anos, tendo me encontrado com ele e trabalhado com seus colaboradores, posso dizer que tais abordagens deixam de captar a riqueza do pensamento do papa e a fé ortodoxa que inspirou suas ações e ensinamentos.

O maior erro ao analisar esse pontificado ocorre ao supor que só porque seus ensinamentos são contra-culturais (o que de fato o são) eles devem ser "antiquados" ou algo do gênero.

Uma freira da ala progressista lamentava o fato da visão de moralidade de João Paulo II ser proveniente de algum lugar do século XIII. Na verdade, a visão do papa é muito mais antiga. Ela remonta o primeiro século e, de fato, vai além disso, e chega ao Sinai.

Algo pode parecer fora de compasso com a cultura contemporânea porque é obsoleto; mas também pode parecer descompassado porque é presciente. Além disso, desde quando a modernidade se tornou padrão de verdade?

Uma das mais importantes lições que João Paulo II nos deixou é uma compreensão renovada de que as coisas não valem simplesmente porque são antigas (sejam elas pessoas ou valores). Ele nos mostrou porque não devemos nos apegar às coisas simplesmente porque são antigas, mas porque têm valor.

Uma das marcas da grandeza de João Paulo II foi sua rejeição a categorias e limitações ideológicas, bem como sua capacidade de unir pensamentos complexos. Para ele, não havia contradição entre exaltar a vocação dos líderes do mundo dos negócios, como o fez de forma inovadora na encíclica de 1991, a Centesimus Annus, e ao mesmo tempo defender os direitos e a dignidade de simples camponeses. Na sua visão, ambas as posições brotavam, não de opiniões, mas da dignidade intrínseca e do destino eterno da pessoa humana: um ser ao mesmo tempo único, irrepetível e imortal.

Para João Paulo II não fazia diferença se a vida humana que precisava de proteção e de afirmação estava no útero materno ou numa enfermaria de hospital, no campo ou numa sala de diretoria.

Isso não constitui contradição. Isso é coerência - uma coerência que foi despedaçada, resultado de um contínuo fascínio pela antiquada compreensão do conflito de classes que ainda está no coração de muitos dos que compõem as nossas elites. Ao opor-se a isso, João Paulo II pediu e acreditou numa harmonia essencial no universo, que tem sua origem no único Deus criador.

Essa é uma das grandes honras de minha vida, ter conhecido e servido a esse homem que foi, ao mesmo tempo, maior que a vida, ainda que intimamente pessoal. Todos nós devemos ser capazes de bendizer e contar para as próximas gerações que tivemos a honra de viver na terra na mesma época que ele viveu.

Padre Robert A. Sirico é Presidente do Acton Institute for the Study of Religion and Freedom (www.acton.org) e Membro do Conselho Editorial do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP).

Texto traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito