Girolamo Zanchi (1516 - 1590)

No dia 2 de fevereiro de 1516, Girolamo Zanchi nasceu no norte da Itália, na cidade de Alazano. Órfão aos quatorze anos, Zanchi ingressou no monastério local da Ordem Agostiniana dos Cônegos Regulares. Em 1541, Zanchi foi transferido para o priorado de San Frediano em Lucca onde Pietro Martire Vermigli – um dos reformadores italianos mais conhecidos e influentes – era prior. Sob a orientação de Martire, Zanchi estudou as obras de algumas das principais personagens da Reforma, como Martin Bucer, Philipp Melanchton, Heinrich Bullinger e João Calvino, e adotou muitas das opiniões teológicas e políticas deles. O clima político e religioso turbulento do século XVI na Europa fizeram com que, por fim, Zanchi deixasse Lucca em 1551 e passasse o resto de sua vida se deslocando para várias cidades diferentes na Europa ocidental.

Heidelberg mostrou ser o lugar onde a produtividade de Zanchi atingiu seu ponto alto. De 1568 a 1576 foi professor de Teologia na Universidade de Heidelberg. Nesse posto, trabalhou num grande sistema teológico chamado Escritos Teológicos. A influência da Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino nesses Escritos Teológicos é clara. Embora fosse incapaz de terminar o projeto, Zanchi pareceu querer criar uma Summa Protestante. Zanchi não só adotou uma estrutura semalhante nos seus Escritos, como também utilizou algo da filosofia do Aquinate, especialmente na área da Lei Natural. Mas Zanchi não se concentrou exclusivamente nos princípios tomistas. O quarto volume dos Escritos Teológicos está repleto de referências, não só à tradição tomistas de Direito Natural, mas também ao Direito Romano, ao Direito Canônico, à Common Law ( ou seja, à Lei Natural), as leis apropriadas ( ou seja, leis consuetudinárias) das nações e igrejas, bem como à política do antigo estado de Israel.

A argumentação de Direito Natural revela seu desgosto por aqueles que abusam do poder político ao promulgar leis injustas. Partindo do pressuposto de que uma lei é outorgada pela devida autoridade, Zanchi observa que uma lei pode ser injusta em uma das duas formas. Seja por promover primariamente o bem estar e a satisfação somente daquele que a promulga, seja por prescrever uma condita que se oponha à Deus ou às leis de Deus. Zanchi sublinha que as leis injustas de ambos os tipos não obrigam nossa consciência. Ademais, temos a obrigação moral de resistir a tais tipos de lei. Portanto, ao passo que Zanchi concorda que as leis justas devem limitar a liberdade individual, ele demonstra, de modo enfático, que ninguém possui nenhuma obrigação de acatar as leis injustas de um tirano. Em suas próprias palavras: “ Se, portanto, alguma autoridade dá uma ordem contrária à Deus, então não só somos ordenados a não obedecer essa autoridade governante, mas também requer que lutemos contra ela.”