Papa Francisco: Um homem de esquerda?

Samuel Gregg

Era inevitável. Com a eleição de um novo representante para a Cátedra de Pedro, nós já vimos esforços para retratá-lo como um “socialmente conservador” ainda que “economicamente de esquerda”. Essa tem sido a forma pela qual virtualmente todos os papas têm sido apresentados desde o longo reinado de Leão XIII. E essa é uma ilustração profunda dos limites da aplicação de categorias políticas seculares a uma instituição como a Igreja Católica.

Ninguém em sã consciência descreveria Jorge Mario Bergoglio como um Milton Friedmaneclesiástico ou um livre-mercadista em segredo. Claramente, ele não é. Mas Francisco realmente têm duas preocupações particulares com respeito às questões econômicas. Uma delas é o materialismo e consumismo explícitos que desfiguram a vida de tantas pessoas. Nenhum católico firmará a salvação das pessoas em uma aquisição infindável de bens materiais. O asceticismo de Francisco é uma clara rejeição àquela forma de pensar.

A segunda preocupação de Francisco com respeito às questões econômicas são os materialmente pobres. Novamente, isso é precisamente o que você esperaria de qualquer cristão ortodoxo. Como o arcebispo Charles Chaput da Filadélfia (que não é um liberal social) certa vez, memoravelmente,escreveu: “Jesus nos diz muito claramente que se não ajudarmos os pobres, iremos para o inferno.Ponto”.

Ao longo dos séculos, todavia, os católicos têm discordado entre si quanto a melhor forma de ajudar os pobres. Realmente, a Igreja ensina que (1) essas questões recaem largamente na área chamada de julgamento prudencial e (2) é primariamente de responsabilidade dos católicos leigos. Nenhum católico pode ser um comunista e, tampouco, pode ser anarcocapitalista. Mas existe muita tolerância entre esses dois extremos.

E a forma como os católicos se posicionam entre estes extremos é fortemente influenciada pelas circunstâncias nas quais se encontram.   E no caso do Papa Francisco, são as condições econômicas particulares da moderna Argentina.

A Argentina é uma nação outrora próspera que experimentou uma rápida espiral aparentemente perpétua de disfunção econômica ao longo do século XX. Por diversas vezes, a Argentina caiu de joelhos devido às políticas populistas do Peronismo, as quais dominam ambos os espectros políticos na Argentina. O “Kirchnerismo”, como proposto pelos últimos dois presidentes argentinos, é simplesmente a última versão do Peronismo.

Em termos concretos, essa patologia se traduz em governo inchado, altos impostos, hostilidade aos negócios e ao investimento externo, dívida interna e externa, e um nível de corrupção muito além da imaginação. O produto é uma mistura curiosa de keynesiano não-sofisticado e descaradocorporativismo. Ele beneficia os poderosos e os bem conectados. Na Argentina, você não prospera ao empreender, atendendo o mercado (forma justa), mas sim ao se aproveitar do poder político e dos privilégios que o estado lhe concede (forma injusta).

Esse é o desastre que o limitado comentário econômico do Papa Francisco tenta tratar desde quando ele se tornou o principal representante da Igreja na Argentina em 1998. E Francisco deixou totalmente claro que a teologia da libertação não é a solução. Uma das razões pelas quais ele não é tão popular entre os seus colegas Jesuítas é que ele impediu que os jesuítas na Argentina seguissem esse caminho nas décadas de 70 e 80. Os componentes marxistas da teologia da libertação, ele sabia, eram claramente incompatíveis com o catolicismo. O padre Bergoglio também previu que ela tornaria a Igreja em nada mais que outro movimento revolucionário e utópico, como ocorreu em outras partes da América Latina.

Minha suspeita é de que o Papa Francisco não investirá muita energia intelectual na proposição de medidas de reforma econômica. Ele certamente continuará a defender os interesses dos pobres contra aqueles que querem manter o status quo da corrupção que prevalece em muitas nações em desenvolvimento. A Igreja Católica tem uma visão definida do conceito de justiça econômica e assim a aplica. Contudo, inferir que o Papa irá levar movimentos como o Occupy Wall Street ao Vaticano já é um exagero. Na verdade, é uma forma de ilusão kirchneriana que simplesmente não faz justiça à sabedoria e à santidade do homem.